Quinta-feira, Maio 05, 2005
A música ocupa todos os espaços, e é no silêncio que sempre te encontra.
Gostas do Inverno, e de dar longos passeios na praia ao anoitecer. Gostas do escuro, de te sentares na areia molhada, e ficar ali a sentir o mar e a ser envolvido pelo frio. Dizes que são esses momentos que te enchem de vida.
O reboliço de todos os dias cansa-te e necessitas ouvir o que há em ti mesmo. Foi a música que te guiou cada passo e te orientou quando não sabias para onde ir. Dizes que a música é a tua bússola, e se ela estiver em ti nunca te perdes.
Nos momentos atribulados em que tudo te sufoca fechas os olhos e vês-te na praia. Não sabes se te aproximas ou se continuas a observar-te ao longe. Sentes-te dividido. Uma parte de ti quer o silêncio, um sorriso no fim do dia é o suficiente. A outra parte quer ir tropeçando nas pessoas e nunca ficar o tempo suficiente para o encore, porque há sempre mais um sítio para ir.
Começa a chover, e a parte de ti que quer o silêncio gosta de sentir a chuva no rosto e sorri. Tira o saxofone da caixa e começa a tocar. A outra parte aproxima-se devagar. Os teus dois eus reúnem-se num só e a música ganha mais força.
O som do teu saxofone invade toda a praia, funde-se nas ondas do mar, e na chuva que cai. Com a tua música fazes parte da natureza e renasces em cada nota. Ao longe ouve-se o choro de um bebé, é a nova música que estás a descobrir, a que te faz sorrir por inteiro em cada instante e nisso há uma beleza que nunca imaginaste poder sentir.
Viver é um mistério, que cada um de nós vai decifrando aos poucos. O mistério da tua vida será sempre uma pauta musical, que vais lendo, cada vez, com mais intensidade.
Gostas do Inverno, e de dar longos passeios na praia ao anoitecer. Gostas do escuro, de te sentares na areia molhada, e ficar ali a sentir o mar e a ser envolvido pelo frio. Dizes que são esses momentos que te enchem de vida.
O reboliço de todos os dias cansa-te e necessitas ouvir o que há em ti mesmo. Foi a música que te guiou cada passo e te orientou quando não sabias para onde ir. Dizes que a música é a tua bússola, e se ela estiver em ti nunca te perdes.
Nos momentos atribulados em que tudo te sufoca fechas os olhos e vês-te na praia. Não sabes se te aproximas ou se continuas a observar-te ao longe. Sentes-te dividido. Uma parte de ti quer o silêncio, um sorriso no fim do dia é o suficiente. A outra parte quer ir tropeçando nas pessoas e nunca ficar o tempo suficiente para o encore, porque há sempre mais um sítio para ir.
Começa a chover, e a parte de ti que quer o silêncio gosta de sentir a chuva no rosto e sorri. Tira o saxofone da caixa e começa a tocar. A outra parte aproxima-se devagar. Os teus dois eus reúnem-se num só e a música ganha mais força.
O som do teu saxofone invade toda a praia, funde-se nas ondas do mar, e na chuva que cai. Com a tua música fazes parte da natureza e renasces em cada nota. Ao longe ouve-se o choro de um bebé, é a nova música que estás a descobrir, a que te faz sorrir por inteiro em cada instante e nisso há uma beleza que nunca imaginaste poder sentir.
Viver é um mistério, que cada um de nós vai decifrando aos poucos. O mistério da tua vida será sempre uma pauta musical, que vais lendo, cada vez, com mais intensidade.

Autor desconhecido
Quarta-feira, Abril 27, 2005
Nasci rodeada de mil cheiros, e as cores das gentes inundavam as paisagens.
O calor ocupava todos os espaços, mas isso não incomodava ninguém.
Das memórias da minha infância guardo as praias e o seu areal imenso. Guardo a água do Indico que me aconchegava e me fazia pensar que todos os mares eram assim, quentes e calmos.
Quando nada me corre bem, fecho os olhos e sonho com o regresso a casa.
Eu sei que as memórias da minha infância são apenas memórias, e muitas delas inventadas por mim. Mas aqui, onde estou hoje, sinto sempre que há uma peça fora de lugar e que o puzzle nunca estará completo enquanto eu não voltar.
Por vezes não são só as pessoas que sentem saudades dos sítios, os sítios também sentem saudades das pessoas e quando isso acontece, fazem um chamamento para que elas regressem. Africa chama sempre de volta aqueles que mais ama. As pessoas regressam para sentir de novo o cheiro, serem abraçadas pelo calor, e principalmente pela terra que se entranha na pele, e não há modo de a tirarmos da nossa alma.
Sinto amor por um sítio que mal conheço. Não consigo viver sem pensar nele, por isso o recordo e o celebro nas minhas palavras.
Nunca precisei de aprender amar Moçambique, fui lá gerada e esse amor nasceu comigo em Lourenço Marques, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo.
Lembro-me de brincar com crianças de origem indiana e não existia nada que nos separasse, nem cor da pele, nem religião, nem língua, completávamo-nos nas diferenças.
A minha madrinha tinha como vizinhos chineses, via-os a passar e brincávamos com o facto de a minha irmã parecer um pequeno Buda por ter os olhos rasgados e ser muito gordinha.
A minha mãe dizia que as crianças de raça negra eram de todas as mais bonitas, e eu aprendia com elas o dialecto da região, os costumes, as danças. Quando cá cheguei fazia um esforço para me recordar de tudo, e tentava dançar do mesmo modo como me tinham ensinado, mas aos poucos fui-me esquecendo da música, perdendo o ritmo e ficando mais europeia.
Mas há coisas que ficaram gravadas, como os mil sabores diferentes a que me habituei na infância, e a mistura das comidas tradicionais da Índia, da China, de Portugal, de Moçambique sempre coloriram a mesa da casa dos meus pais.
A minha prima Joana um dia disse-me que o lugar onde nascemos tem muita influência na pessoa que somos. Não sei se é assim com toda a gente, mas algo em mim é como é, porque nasci numa terra que nos rouba parte da alma e a guarda na natureza. Algumas tribos acreditam que quem nasce em Moçambique se um dia partir, metade da sua alma fica lá presa à espera que regresse, e poderá encontrá-la de novo nos sítios que mais amou.
A verdade é que tenho medo do regresso porque sei que não existem semelhanças entre a realidade e as recordações. Um local estranho ao qual sempre pertenci. Não terei ninguém à espera, as pessoas que eu lá conheci, morreram ou partiram. No dia em que regressar nascerei de novo, será como se tornasse ao ventre de minha mãe. Ainda não estou preparada para voltar a nascer, prefiro continuar a viver através das saudades. Na minha imaginação é sempre tudo mais bonito.
O calor ocupava todos os espaços, mas isso não incomodava ninguém.
Das memórias da minha infância guardo as praias e o seu areal imenso. Guardo a água do Indico que me aconchegava e me fazia pensar que todos os mares eram assim, quentes e calmos.
Quando nada me corre bem, fecho os olhos e sonho com o regresso a casa.
Eu sei que as memórias da minha infância são apenas memórias, e muitas delas inventadas por mim. Mas aqui, onde estou hoje, sinto sempre que há uma peça fora de lugar e que o puzzle nunca estará completo enquanto eu não voltar.
Por vezes não são só as pessoas que sentem saudades dos sítios, os sítios também sentem saudades das pessoas e quando isso acontece, fazem um chamamento para que elas regressem. Africa chama sempre de volta aqueles que mais ama. As pessoas regressam para sentir de novo o cheiro, serem abraçadas pelo calor, e principalmente pela terra que se entranha na pele, e não há modo de a tirarmos da nossa alma.
Sinto amor por um sítio que mal conheço. Não consigo viver sem pensar nele, por isso o recordo e o celebro nas minhas palavras.
Nunca precisei de aprender amar Moçambique, fui lá gerada e esse amor nasceu comigo em Lourenço Marques, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo.
Lembro-me de brincar com crianças de origem indiana e não existia nada que nos separasse, nem cor da pele, nem religião, nem língua, completávamo-nos nas diferenças.
A minha madrinha tinha como vizinhos chineses, via-os a passar e brincávamos com o facto de a minha irmã parecer um pequeno Buda por ter os olhos rasgados e ser muito gordinha.
A minha mãe dizia que as crianças de raça negra eram de todas as mais bonitas, e eu aprendia com elas o dialecto da região, os costumes, as danças. Quando cá cheguei fazia um esforço para me recordar de tudo, e tentava dançar do mesmo modo como me tinham ensinado, mas aos poucos fui-me esquecendo da música, perdendo o ritmo e ficando mais europeia.
Mas há coisas que ficaram gravadas, como os mil sabores diferentes a que me habituei na infância, e a mistura das comidas tradicionais da Índia, da China, de Portugal, de Moçambique sempre coloriram a mesa da casa dos meus pais.
A minha prima Joana um dia disse-me que o lugar onde nascemos tem muita influência na pessoa que somos. Não sei se é assim com toda a gente, mas algo em mim é como é, porque nasci numa terra que nos rouba parte da alma e a guarda na natureza. Algumas tribos acreditam que quem nasce em Moçambique se um dia partir, metade da sua alma fica lá presa à espera que regresse, e poderá encontrá-la de novo nos sítios que mais amou.
A verdade é que tenho medo do regresso porque sei que não existem semelhanças entre a realidade e as recordações. Um local estranho ao qual sempre pertenci. Não terei ninguém à espera, as pessoas que eu lá conheci, morreram ou partiram. No dia em que regressar nascerei de novo, será como se tornasse ao ventre de minha mãe. Ainda não estou preparada para voltar a nascer, prefiro continuar a viver através das saudades. Na minha imaginação é sempre tudo mais bonito.

Artur k.
Domingo, Fevereiro 27, 2005
As palavras confundem-se de um modo desajeitado e digo menos do que aquilo que queria dizer. É sempre assim quando não sabemos bem para onde queremos ir.
Quando éramos pequenos brincávamos durante horas seguidas, sem pensarmos no dia seguinte. A única coisa que importava era apenas o momento presente. Quando somos crianças recusamo-nos a adiar as brincadeiras porque o dia de amanhã nunca existe.
Hoje tu deitas a cabeça no meu colo e pedes-me para te contar a história do Peter Pan. Também tu és um menino que se recusa a crescer. Talvez seja isso o que nos une, somos as eternas crianças que se recusam a pensar no dia de amanhã, e vivemos o hoje como se mais nada importasse. Dizes que aprendemos isso com os golfinhos, e eu lembro-me de uma fotografia que gravei na memória. Tínhamos 12 anos e estávamos num navio, no meio do mediterrâneo, perto da costa de Africa. Era final da tarde, e fomos olhar o mar. Já não me recordo se fui eu, ou se foste tu quem os viu primeiro. Eram 7 golfinhos, que acompanhavam o navio alegremente. Saltavam como se nos quisessem tocar. Eu e tu tivemos vontade de fazer o mesmo e ir brincar com eles. Por um instante tive a certeza de que se não te agarrasse com força, tu saltavas.
O único que lhes importava era só o momento presente, assim tudo fazia sentido, e como o sol, eles nasciam todos os dias. Senti, nesse dia, que nunca ia conseguir ser tão livre como eles, simplesmente, porque queria estar presa a ti.
Hoje dou-te um abraço demorado, que pede para não ser desatado. Digo que tenho pouca paciência, não consigo aceitar as coisas como elas são. Tu não dizes nada, e apenas me ouves, e nesse silêncio ouço o mar como se fosses uma concha. Sei que é a ele que pertences de verdade e que te deveria ter deixado saltar, naquele fim de tarde, quando vimos os golfinhos.
Tu és do mar, do vento, e dessa música que respiras como se fosse o ar, e não sabes com que força lhe pertences. Eu sou apenas de mim mesma e do fogo que trago escrito nos olhos. Gostar de ti é um caminho sem mapas, em que me perco nos passos que dou, mas não me importo. Cada dia gosto um bocadinho mais e o silêncio que me dás é um poema que não digo.
Os golfinhos deram-me um presente, despertaram em mim este desejo que por vezes me consome e por vezes me ilumina, o de mergulhar nas coisas sempre por inteiro como se não houvesse o amanhã.
Mas eu sei que por vezes isso não é o suficiente e lá vou tropeçando nas palavras e guardando para mim aquelas que te queria dar.
Quando éramos pequenos brincávamos durante horas seguidas, sem pensarmos no dia seguinte. A única coisa que importava era apenas o momento presente. Quando somos crianças recusamo-nos a adiar as brincadeiras porque o dia de amanhã nunca existe.
Hoje tu deitas a cabeça no meu colo e pedes-me para te contar a história do Peter Pan. Também tu és um menino que se recusa a crescer. Talvez seja isso o que nos une, somos as eternas crianças que se recusam a pensar no dia de amanhã, e vivemos o hoje como se mais nada importasse. Dizes que aprendemos isso com os golfinhos, e eu lembro-me de uma fotografia que gravei na memória. Tínhamos 12 anos e estávamos num navio, no meio do mediterrâneo, perto da costa de Africa. Era final da tarde, e fomos olhar o mar. Já não me recordo se fui eu, ou se foste tu quem os viu primeiro. Eram 7 golfinhos, que acompanhavam o navio alegremente. Saltavam como se nos quisessem tocar. Eu e tu tivemos vontade de fazer o mesmo e ir brincar com eles. Por um instante tive a certeza de que se não te agarrasse com força, tu saltavas.
O único que lhes importava era só o momento presente, assim tudo fazia sentido, e como o sol, eles nasciam todos os dias. Senti, nesse dia, que nunca ia conseguir ser tão livre como eles, simplesmente, porque queria estar presa a ti.
Hoje dou-te um abraço demorado, que pede para não ser desatado. Digo que tenho pouca paciência, não consigo aceitar as coisas como elas são. Tu não dizes nada, e apenas me ouves, e nesse silêncio ouço o mar como se fosses uma concha. Sei que é a ele que pertences de verdade e que te deveria ter deixado saltar, naquele fim de tarde, quando vimos os golfinhos.
Tu és do mar, do vento, e dessa música que respiras como se fosse o ar, e não sabes com que força lhe pertences. Eu sou apenas de mim mesma e do fogo que trago escrito nos olhos. Gostar de ti é um caminho sem mapas, em que me perco nos passos que dou, mas não me importo. Cada dia gosto um bocadinho mais e o silêncio que me dás é um poema que não digo.
Os golfinhos deram-me um presente, despertaram em mim este desejo que por vezes me consome e por vezes me ilumina, o de mergulhar nas coisas sempre por inteiro como se não houvesse o amanhã.
Mas eu sei que por vezes isso não é o suficiente e lá vou tropeçando nas palavras e guardando para mim aquelas que te queria dar.

Autor Desconhecido
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
Lembro-me do momento exacto em que descobri que queria ficar contigo mais do que um fim-de-semana.
Estava apanhar sol na varanda da tua casa. Adormeci e tu cobriste-me com uma toalha, para que eu não me queimasse. Bastou isso. Não foi preciso mais nada.
Vivemos de pequenos gestos que nos tocam com força.
Quando era pequena gostava de me fechar no meu mundo e de brincar sozinha com as bonecas. Inventava histórias intermináveis, e lia livros de Fadas, aos poucos elas transformaram-se nas minhas melhores amigas e deram-me o dom de acreditar que tudo é possível. Mas eu deixei de brincar com bonecas, e as Fadas deixaram de me visitar. Crescer tem destas coisas, e a correria de todos os dias rouba-nos um pouco da nossa essência.
Lembras-te de quando subi a uma montanha só porque queria estar mais perto do céu? Ou quando deixava tudo, para apanhar o comboio? Três horas depois estava a bater à porta de tua casa, e tu recebias-me com um poema.
Um dia dei-te um barco no Tejo que só navegou nos meus sonhos e nas tuas poesias. Mas bastava isso e o chapéu de palha que me ofereceste e que foi levado pelo vento.
No Inverno ocupamos a cabana de madeira que havia na praia, onde não vivia ninguém. Fizemos muitos piqueniques na varanda com vista para o mar. Nós sorriamos porque naquele momento não precisávamos de mais nada. Depois eu contava-te histórias para adormeceres e vigiava o teu sono. Sempre gostei de ficar a olhar para ti enquanto dormias.
Escreveste muitos poemas nesses tempos, depois davas-mos e eu lia-os para ti. Entrava neles descalça e eles passavam a fazer parte de mim. Por vezes ainda sou perseguida por algumas dessas tuas palavras que me vestiam de cores, sempre que era tocada por elas. Eu sentava-me no sofá, perto de ti, e fingia que estava entretida com algum livro. Gostava de te ouvir desenhar palavras no teclado do teu computador. O silêncio que tomava conta de nós tinha cheiros e sabores, e éramos embalados por ele. Ser íntimo de alguém é saber partilhar os silêncios.
Por vezes lembro-me da tua vizinha do prédio em frente. A velhinha espiava -nos com curiosidade nas noites em que não conseguia dormir por causa do calor. Eu achava que ela era a nossa Fada – madrinha e que nos protegia de longe. Quando eu dizia essas coisas tu sorrias, como se não acreditasses. Agora tenho mesmo a certeza de que ela tomava conta de nós, e que gostava de nos ver aos pulos pela sala, com a música altíssima às três da manhã. Nós riamos e dizíamos que estávamos a dançar. Ela era o nosso único público e aplaudia -nos com o olhar.
Quando nós partimos ela sentiu-se sozinha e nós ficamos sem protecção. Até as Fadas gostam de se sentir acompanhadas, nem que seja pelos vizinhos do prédio em frente.
Foi nessa altura em que eu e tu seguimos caminhos diferentes. Tu foste para o frio e eu fiquei com o sol e o mar.
Ainda me lembro daquela boneca de neve que um dia fizemos, e que só durou o instante de tirar uma fotografia. Depois veio um rapaz e desmanchou-a com um pontapé. Lembras-te de termos seguido o rapaz? Atiramos-lhe uma bola de neve, e eu gritei qualquer coisa que ele não entendeu. Era tão linda a nossa boneca, mas ainda guardo a fotografia.
Muitas vezes tive vontade de ir ter contigo e ficar também eu lá no frio, mas tinha que seguir em frente no meu caminho. Tinha pessoas e sítios para conhecer, e não podia fugir a isso porque tudo isso tornou-me na pessoa que sou hoje.
Ainda vou até à praia no Inverno e fico lá sentir o sol. A nossa cabana já não existe. Às vezes o vento traz-me a memória da tua gargalhada, e sou abraçada por ela.
Hoje lembrei-me de ti ao ler um poema que escreveste. Ainda entro descalça nas tuas palavras, ainda as leio em voz alta. Mas tu sabes que tenho demasiada vida em mim, e que por isso mesmo, penso que estou sempre perto do fim. Não gosto de esperar, nunca gostei. Gosto de viver de imediato, sem adiar nada. Por isso não consegui esperar pelo teu regresso e encontrei-me no trilho que segui.
Estava apanhar sol na varanda da tua casa. Adormeci e tu cobriste-me com uma toalha, para que eu não me queimasse. Bastou isso. Não foi preciso mais nada.
Vivemos de pequenos gestos que nos tocam com força.
Quando era pequena gostava de me fechar no meu mundo e de brincar sozinha com as bonecas. Inventava histórias intermináveis, e lia livros de Fadas, aos poucos elas transformaram-se nas minhas melhores amigas e deram-me o dom de acreditar que tudo é possível. Mas eu deixei de brincar com bonecas, e as Fadas deixaram de me visitar. Crescer tem destas coisas, e a correria de todos os dias rouba-nos um pouco da nossa essência.
Lembras-te de quando subi a uma montanha só porque queria estar mais perto do céu? Ou quando deixava tudo, para apanhar o comboio? Três horas depois estava a bater à porta de tua casa, e tu recebias-me com um poema.
Um dia dei-te um barco no Tejo que só navegou nos meus sonhos e nas tuas poesias. Mas bastava isso e o chapéu de palha que me ofereceste e que foi levado pelo vento.
No Inverno ocupamos a cabana de madeira que havia na praia, onde não vivia ninguém. Fizemos muitos piqueniques na varanda com vista para o mar. Nós sorriamos porque naquele momento não precisávamos de mais nada. Depois eu contava-te histórias para adormeceres e vigiava o teu sono. Sempre gostei de ficar a olhar para ti enquanto dormias.
Escreveste muitos poemas nesses tempos, depois davas-mos e eu lia-os para ti. Entrava neles descalça e eles passavam a fazer parte de mim. Por vezes ainda sou perseguida por algumas dessas tuas palavras que me vestiam de cores, sempre que era tocada por elas. Eu sentava-me no sofá, perto de ti, e fingia que estava entretida com algum livro. Gostava de te ouvir desenhar palavras no teclado do teu computador. O silêncio que tomava conta de nós tinha cheiros e sabores, e éramos embalados por ele. Ser íntimo de alguém é saber partilhar os silêncios.
Por vezes lembro-me da tua vizinha do prédio em frente. A velhinha espiava -nos com curiosidade nas noites em que não conseguia dormir por causa do calor. Eu achava que ela era a nossa Fada – madrinha e que nos protegia de longe. Quando eu dizia essas coisas tu sorrias, como se não acreditasses. Agora tenho mesmo a certeza de que ela tomava conta de nós, e que gostava de nos ver aos pulos pela sala, com a música altíssima às três da manhã. Nós riamos e dizíamos que estávamos a dançar. Ela era o nosso único público e aplaudia -nos com o olhar.
Quando nós partimos ela sentiu-se sozinha e nós ficamos sem protecção. Até as Fadas gostam de se sentir acompanhadas, nem que seja pelos vizinhos do prédio em frente.
Foi nessa altura em que eu e tu seguimos caminhos diferentes. Tu foste para o frio e eu fiquei com o sol e o mar.
Ainda me lembro daquela boneca de neve que um dia fizemos, e que só durou o instante de tirar uma fotografia. Depois veio um rapaz e desmanchou-a com um pontapé. Lembras-te de termos seguido o rapaz? Atiramos-lhe uma bola de neve, e eu gritei qualquer coisa que ele não entendeu. Era tão linda a nossa boneca, mas ainda guardo a fotografia.
Muitas vezes tive vontade de ir ter contigo e ficar também eu lá no frio, mas tinha que seguir em frente no meu caminho. Tinha pessoas e sítios para conhecer, e não podia fugir a isso porque tudo isso tornou-me na pessoa que sou hoje.
Ainda vou até à praia no Inverno e fico lá sentir o sol. A nossa cabana já não existe. Às vezes o vento traz-me a memória da tua gargalhada, e sou abraçada por ela.
Hoje lembrei-me de ti ao ler um poema que escreveste. Ainda entro descalça nas tuas palavras, ainda as leio em voz alta. Mas tu sabes que tenho demasiada vida em mim, e que por isso mesmo, penso que estou sempre perto do fim. Não gosto de esperar, nunca gostei. Gosto de viver de imediato, sem adiar nada. Por isso não consegui esperar pelo teu regresso e encontrei-me no trilho que segui.
Zochna by Artur K.
Domingo, Janeiro 02, 2005
Desta vez doeu mais, talvez porque estavas a dormir quando decidi ir-me embora, e nem um beijo te dei.
Tinhas-me pedido para te fazer companhia enquanto descansavas, mas não consegui ficar, foi mais forte do que eu. Levantei-me, olhei para ti e saí. Só deixei uma fatia de bolo, e um resto do pão com queijo que me deste. Pensas sempre que preciso de me alimentar, e não entendes quando te digo que não tenho fome, porque me bastas tu.
Vivemos de momentos, o daquele dia tinha chegado ao fim e resolvi ir descobrir a manhã, sentir o sol, ouvir o mar, e pensar em ti. Só sei gostar assim, não gosto de despedidas e prefiro ser sempre eu a que se vai embora, mas és tu quem tem todas as cartas do jogo, o que aparece quando sente saudades, o que não responde às minhas perguntas, o que me acorda a meio da noite porque se lembra de que quer estar comigo.
Só sei de ti o que me contas, bebo dessa tua alegria contagiante e dessa força que não sei de onde vem.
Não temos passado, nem presente, nem futuro. Só temos momentos soltos no tempo sem qualquer elo de ligação. Muitas vezes isso basta-me, mas o desejo de querer algo, além disto, é sempre mais forte. Nas noites em que tu não vens, o que existe é a solidão, e o silêncio que me sufoca num grito que não dou.
Lembro-me do momento exacto em que descobri que queria ficar com alguém mais do que um fim-de-semana. Estou à espera do momento exacto em que vou descobrir que quero ficar contigo sem pensar na despedida.
Sei que o que gostas em mim é o modo com que me rio de tudo. Gostas dos contos que escrevo para ti e que te dou para ler enquanto conduzes, para que não repares no facto de seres sempre a personagem principal. Gostas das minhas mãos e de toda a fragilidade que há nelas. Gostas que te ensine a rezar e por vezes inventamos uma oração só nossa que rezamos a um Deus que só nós sabemos qual é.
No outro dia disseste que gostavas de gaivotas, fomos à procura delas, e quando as encontramos ficamos em silêncio a observá-las. Tu sorrias para mim, como se tudo se resumisse àquele instante e não precisássemos de mais nada para sermos felizes. Talvez o segredo seja esse, viver as coisas sem as questionar.
Tinhas-me pedido para te fazer companhia enquanto descansavas, mas não consegui ficar, foi mais forte do que eu. Levantei-me, olhei para ti e saí. Só deixei uma fatia de bolo, e um resto do pão com queijo que me deste. Pensas sempre que preciso de me alimentar, e não entendes quando te digo que não tenho fome, porque me bastas tu.
Vivemos de momentos, o daquele dia tinha chegado ao fim e resolvi ir descobrir a manhã, sentir o sol, ouvir o mar, e pensar em ti. Só sei gostar assim, não gosto de despedidas e prefiro ser sempre eu a que se vai embora, mas és tu quem tem todas as cartas do jogo, o que aparece quando sente saudades, o que não responde às minhas perguntas, o que me acorda a meio da noite porque se lembra de que quer estar comigo.
Só sei de ti o que me contas, bebo dessa tua alegria contagiante e dessa força que não sei de onde vem.
Não temos passado, nem presente, nem futuro. Só temos momentos soltos no tempo sem qualquer elo de ligação. Muitas vezes isso basta-me, mas o desejo de querer algo, além disto, é sempre mais forte. Nas noites em que tu não vens, o que existe é a solidão, e o silêncio que me sufoca num grito que não dou.
Lembro-me do momento exacto em que descobri que queria ficar com alguém mais do que um fim-de-semana. Estou à espera do momento exacto em que vou descobrir que quero ficar contigo sem pensar na despedida.
Sei que o que gostas em mim é o modo com que me rio de tudo. Gostas dos contos que escrevo para ti e que te dou para ler enquanto conduzes, para que não repares no facto de seres sempre a personagem principal. Gostas das minhas mãos e de toda a fragilidade que há nelas. Gostas que te ensine a rezar e por vezes inventamos uma oração só nossa que rezamos a um Deus que só nós sabemos qual é.
No outro dia disseste que gostavas de gaivotas, fomos à procura delas, e quando as encontramos ficamos em silêncio a observá-las. Tu sorrias para mim, como se tudo se resumisse àquele instante e não precisássemos de mais nada para sermos felizes. Talvez o segredo seja esse, viver as coisas sem as questionar.
Self by Artur K.
Quinta-feira, Dezembro 23, 2004
Vives de noite, como se a luz te desse medo.
Dizes que o único brilho de que precisas é o dos meus olhos quando eu fico acordada à tua espera. Chegas sempre de madrugada, e levas-me até à praia para jogar raquetes. Tentas ensinar-me a atirar a bola, e sorris com o modo desajeitado com que eu o faço. Por vezes é Inverno, não temos sono e é bom sentir o frio quando não chove. Depois proteges-me num abraço e ali ficámos até a noite deixar de ser escura.
Eu gosto desses momentos. A tua alegria tem o sabor da música e eu volto a sentir vontade de dançar.
Pouco antes de te conhecer, aquelas pequenas coisas que enchem os dias, perderam o sentido. Não havia perguntas para fazer e não tinha medo de nada, porque era indiferente a tudo.
O lugar vazio à mesa fez com que eu deixasse de acreditar.
Restavam-me os livros de poesia e eu tropeçava nas palavras como quem tropeça nos sentimentos, era disso que me alimentava. Agarrei-me à poesia num desejo secreto de continuar a respirar.
Lembro-me de uma amiga que perdi quando eu tinha 10 anos. Vínhamos todos os dias juntas da escola. As férias de Natal estavam a chegar e nós falávamos entusiasmadas dos presentes que queríamos receber. Quando me apercebi de que ela ainda acreditava no Pai Natal, tentei explicar-lhe que ele não existia. Os meus pais nunca me alimentaram essa fantasia e eu sabia quem é que me dava as prendas. Ela ficou muito zangada comigo, no início pensou que lhe estava a mentir, depois disse-me que lhe tinha estragado o Natal desse ano e todos os Natais futuros. A verdade ás vezes dói. Eu perdi uma amiga.
Muitos anos depois, encontrei-a por acaso. Ela tinha mudado, estava alegre e confiante. Quando me viu, sorriu muito, pedi-lhe desculpas por lhe ter revelado que o homem das barbas brancas não existia. Ela deu uma gargalhada e disse que eu fui a primeira pessoa a ser sincera com ela. Esse foi o melhor presente que alguém lhe deu.
Quando me lembro do Natal recordo-me dessa minha amiga e de quando tínhamos 10 anos. Com ela aprendi que nesta data nem tudo é alegria, ou verdade.
Com o tempo deixei de gostar do Natal, o lugar vazio à mesa fez com eu deixasse de acreditar.
Ainda passeio à noite para ver as ruas iluminadas com os enfeites natalícios. Todas aquelas luzes continuam a fascinar-me e eu fico muito quieta a observá-las.
Em casa, ponho a tocar as músicas alegres desta época, contrastando com o facto de estar mais calada e pensativa.Todos os anos, em memória daquele presépio de artesanato que me deste em Santarém, compro sempre um. Gosto de presépios, fazem-me lembrar o frio que se transforma em calor.
Tu sorris quando te conto estas coisas. Dizes que não precisas de saber se Deus realmente existe, que não é isso o que importa. Dizes que te basta acreditar no meu olhar, que só ele foi capaz de transformar o Diabo que eras, num Anjo.
Para ti é no Amor que estão todas as respostas e todos os caminhos.
Dizes que o meu olhar é amor. É a tua verdade.
Dizes que o único brilho de que precisas é o dos meus olhos quando eu fico acordada à tua espera. Chegas sempre de madrugada, e levas-me até à praia para jogar raquetes. Tentas ensinar-me a atirar a bola, e sorris com o modo desajeitado com que eu o faço. Por vezes é Inverno, não temos sono e é bom sentir o frio quando não chove. Depois proteges-me num abraço e ali ficámos até a noite deixar de ser escura.
Eu gosto desses momentos. A tua alegria tem o sabor da música e eu volto a sentir vontade de dançar.
Pouco antes de te conhecer, aquelas pequenas coisas que enchem os dias, perderam o sentido. Não havia perguntas para fazer e não tinha medo de nada, porque era indiferente a tudo.
O lugar vazio à mesa fez com que eu deixasse de acreditar.
Restavam-me os livros de poesia e eu tropeçava nas palavras como quem tropeça nos sentimentos, era disso que me alimentava. Agarrei-me à poesia num desejo secreto de continuar a respirar.
Lembro-me de uma amiga que perdi quando eu tinha 10 anos. Vínhamos todos os dias juntas da escola. As férias de Natal estavam a chegar e nós falávamos entusiasmadas dos presentes que queríamos receber. Quando me apercebi de que ela ainda acreditava no Pai Natal, tentei explicar-lhe que ele não existia. Os meus pais nunca me alimentaram essa fantasia e eu sabia quem é que me dava as prendas. Ela ficou muito zangada comigo, no início pensou que lhe estava a mentir, depois disse-me que lhe tinha estragado o Natal desse ano e todos os Natais futuros. A verdade ás vezes dói. Eu perdi uma amiga.
Muitos anos depois, encontrei-a por acaso. Ela tinha mudado, estava alegre e confiante. Quando me viu, sorriu muito, pedi-lhe desculpas por lhe ter revelado que o homem das barbas brancas não existia. Ela deu uma gargalhada e disse que eu fui a primeira pessoa a ser sincera com ela. Esse foi o melhor presente que alguém lhe deu.
Quando me lembro do Natal recordo-me dessa minha amiga e de quando tínhamos 10 anos. Com ela aprendi que nesta data nem tudo é alegria, ou verdade.
Com o tempo deixei de gostar do Natal, o lugar vazio à mesa fez com eu deixasse de acreditar.
Ainda passeio à noite para ver as ruas iluminadas com os enfeites natalícios. Todas aquelas luzes continuam a fascinar-me e eu fico muito quieta a observá-las.
Em casa, ponho a tocar as músicas alegres desta época, contrastando com o facto de estar mais calada e pensativa.Todos os anos, em memória daquele presépio de artesanato que me deste em Santarém, compro sempre um. Gosto de presépios, fazem-me lembrar o frio que se transforma em calor.
Tu sorris quando te conto estas coisas. Dizes que não precisas de saber se Deus realmente existe, que não é isso o que importa. Dizes que te basta acreditar no meu olhar, que só ele foi capaz de transformar o Diabo que eras, num Anjo.
Para ti é no Amor que estão todas as respostas e todos os caminhos.
Dizes que o meu olhar é amor. É a tua verdade.
O Natal é isso, acreditar em algo ou alguém. Tu acreditas em mim, e eu não sei se és um anjo, mas coloco-te no cimo do meu presépio.
Marek Urbañski
Sábado, Dezembro 11, 2004
Desde pequena que sempre gostei do faz de conta. O meu jogo preferido era brincar com as bonecas durante horas e inventar histórias sem fim, onde eu fazia vozes diferentes de acordo com as peripécias que criava.
O meu sonho secreto sempre foi fazer teatro, quando cresci tornei-o realidade.
Com umas amigas tenho um grupo de teatro chamado “Maria Quatro”, somos 4 Marias, apesar de nenhuma de nós se chamar assim. Confesso que foi um homem quem nos deu este nome.
Somos as 4 muito diferentes umas das outras, temos em comum a paixão pelas palavras e dar-lhes vida emprestando-lhes o corpo, e muitas vezes a alma.
Sempre achei que nos devemos dar por inteiro ao que amamos, vale sempre a pena, seja qual for o resultado. Para mim fazer teatro é um acto de amor.
Quando não fazemos teatro dizemos poesia, e mais uma vez as palavras ganham corpo...
O meu sonho secreto sempre foi fazer teatro, quando cresci tornei-o realidade.
Com umas amigas tenho um grupo de teatro chamado “Maria Quatro”, somos 4 Marias, apesar de nenhuma de nós se chamar assim. Confesso que foi um homem quem nos deu este nome.
Somos as 4 muito diferentes umas das outras, temos em comum a paixão pelas palavras e dar-lhes vida emprestando-lhes o corpo, e muitas vezes a alma.
Sempre achei que nos devemos dar por inteiro ao que amamos, vale sempre a pena, seja qual for o resultado. Para mim fazer teatro é um acto de amor.
Quando não fazemos teatro dizemos poesia, e mais uma vez as palavras ganham corpo...
Sábado, Novembro 20, 2004
A todos os que tem asas: pássaros e borboletas (e outras espécies)
Há dias em que a solidão ocupa todos os espaços e o silêncio é perturbador.
Nesses dias eu tenho asas para poder voar e nunca olho para trás.
Procuro-te em todas as ruas, e encontro os postes de electricidade que pintaste de azul, laranja, violeta, porque tu não gostas do cimento e queres estar rodeado de cores.
Se pudesses davas um colorido mais alegre às pontes, aos muros e farias com que o alcatrão das estradas tivesse a tonalidade de um pôr-do-sol.
Gostas de passar horas a tratar das tuas palmeiras, mexer na terra e misturares-te com ela. Dizes que na natureza a cor é sinal de vida. Por isso às vezes navegas nos meus olhos e perdemo-nos os dois num tempo sem horas, onde andamos às voltas num sofá verde.
Somos espiados pelo velho que cospe no chão e bate com a bengala nas pedras do jardim. Depois chega o pintor que tem como namorada uma muleta, não nos cumprimenta, vira-nos a cara e nós com vontade de o convidar para tomar um café.
Todos nos olham, mas somos aparentemente ignorados. As pessoas sempre sentem medo e desconfiança de quem possui asas. Não importa o que os outros pensam, a nossa liberdade leva-nos a sítios que ninguém imagina que possam existir.
O sofá verde continua a circular sem destino e eu gosto de te ouvir falar com entusiasmo das coisas que mais te emocionam. Fico em silêncio a olhar para ti, tentando memorizar as tuas expressões e esse teu jeito meio sério, meio brincalhão. Ambos sabemos que és um pássaro. Finjo que não me importo por nunca estares mais de um dia no mesmo sítio. Há pessoas assim, que se um dia ganharem raízes perdem a alma. Tu és uma delas.
Perco-me nos meus pensamentos. Caio do sofá e não quero que me agarres. Sou uma borboleta, e se pudesse pintar a cor do meu céu, pintaria em vermelho. Continuo a voar. Voo na solidão. Aprendo-me em cada desencontro.
Há pessoas que não esqueço, e noutras nem reparo, quando passam por mim.
Pouso no cabelo da menina que parece uma pequena fada e tem um casaco da cor do meu céu. A menina leva na mão os lápis e o caderno. Cada pagina tem um desenho, e cada desenho é feito de uma cor só. A menina não gosta de misturar cores, e eu gosto de a observar enquanto ela escolhe o lápis para desenhar. O meu preferido foi um que ela fez com casas, flores e pessoas, tudo a amarelo.
A menina não sorri para mim, mas o seu olhar é curioso e tenta ignorar-me. Eu sei que um dia as asas dela vão crescer e ela vai voar. Consigo ver isso nos seus olhos.
A menina agora vai para casa e eu digo-lhe boa noite, ela tenta agarrar-me e eu fujo para longe.
Tenho vontade de continuar a sentir as cores, e que a minha solidão se pareça a uma pintura pendurada numa parede, para onde todos olham e admiram, mas que ninguém toca porque pode estragar.
Lembro-me de ir visitar a Regina e entro pela janela da sua casa. Ela não repara em mim, e está distraída a pintar a roupa. Ela é como tu, gosta de ver tudo com cor. Pintou a televisão porque era a preto e branco. Pintou as portas porque eram demasiado castanhas. Pintou os vidros porque eram transparentes.
Fico parada a observá-la, não a quero interromper. Cada pincelada que ela dá é como se fizesse parte de um ritual mágico, e cada gota de tinta é vida que faz renascer tudo à volta. A Regina também tem asas e usa-as nas suas pinturas, é nelas que se liberta.
Esvoaço mais uma vez, bem perto dela, e saio pela janela que continua aberta. Ela não me chegou a ver, eu não quis.
A solidão leva-me sempre a algum sítio, e guardo comigo todas as pessoas coloridas que me dão beleza com as suas histórias.
O dia está a chegar ao fim, e eu sou uma borboleta cansada, desejando pousar numa flor. Resolvo ir novamente à tua procura, sei que te vou encontrar coberto de tinta e sorridente.
Nesses dias eu tenho asas para poder voar e nunca olho para trás.
Procuro-te em todas as ruas, e encontro os postes de electricidade que pintaste de azul, laranja, violeta, porque tu não gostas do cimento e queres estar rodeado de cores.
Se pudesses davas um colorido mais alegre às pontes, aos muros e farias com que o alcatrão das estradas tivesse a tonalidade de um pôr-do-sol.
Gostas de passar horas a tratar das tuas palmeiras, mexer na terra e misturares-te com ela. Dizes que na natureza a cor é sinal de vida. Por isso às vezes navegas nos meus olhos e perdemo-nos os dois num tempo sem horas, onde andamos às voltas num sofá verde.
Somos espiados pelo velho que cospe no chão e bate com a bengala nas pedras do jardim. Depois chega o pintor que tem como namorada uma muleta, não nos cumprimenta, vira-nos a cara e nós com vontade de o convidar para tomar um café.
Todos nos olham, mas somos aparentemente ignorados. As pessoas sempre sentem medo e desconfiança de quem possui asas. Não importa o que os outros pensam, a nossa liberdade leva-nos a sítios que ninguém imagina que possam existir.
O sofá verde continua a circular sem destino e eu gosto de te ouvir falar com entusiasmo das coisas que mais te emocionam. Fico em silêncio a olhar para ti, tentando memorizar as tuas expressões e esse teu jeito meio sério, meio brincalhão. Ambos sabemos que és um pássaro. Finjo que não me importo por nunca estares mais de um dia no mesmo sítio. Há pessoas assim, que se um dia ganharem raízes perdem a alma. Tu és uma delas.
Perco-me nos meus pensamentos. Caio do sofá e não quero que me agarres. Sou uma borboleta, e se pudesse pintar a cor do meu céu, pintaria em vermelho. Continuo a voar. Voo na solidão. Aprendo-me em cada desencontro.
Há pessoas que não esqueço, e noutras nem reparo, quando passam por mim.
Pouso no cabelo da menina que parece uma pequena fada e tem um casaco da cor do meu céu. A menina leva na mão os lápis e o caderno. Cada pagina tem um desenho, e cada desenho é feito de uma cor só. A menina não gosta de misturar cores, e eu gosto de a observar enquanto ela escolhe o lápis para desenhar. O meu preferido foi um que ela fez com casas, flores e pessoas, tudo a amarelo.
A menina não sorri para mim, mas o seu olhar é curioso e tenta ignorar-me. Eu sei que um dia as asas dela vão crescer e ela vai voar. Consigo ver isso nos seus olhos.
A menina agora vai para casa e eu digo-lhe boa noite, ela tenta agarrar-me e eu fujo para longe.
Tenho vontade de continuar a sentir as cores, e que a minha solidão se pareça a uma pintura pendurada numa parede, para onde todos olham e admiram, mas que ninguém toca porque pode estragar.
Lembro-me de ir visitar a Regina e entro pela janela da sua casa. Ela não repara em mim, e está distraída a pintar a roupa. Ela é como tu, gosta de ver tudo com cor. Pintou a televisão porque era a preto e branco. Pintou as portas porque eram demasiado castanhas. Pintou os vidros porque eram transparentes.
Fico parada a observá-la, não a quero interromper. Cada pincelada que ela dá é como se fizesse parte de um ritual mágico, e cada gota de tinta é vida que faz renascer tudo à volta. A Regina também tem asas e usa-as nas suas pinturas, é nelas que se liberta.
Esvoaço mais uma vez, bem perto dela, e saio pela janela que continua aberta. Ela não me chegou a ver, eu não quis.
A solidão leva-me sempre a algum sítio, e guardo comigo todas as pessoas coloridas que me dão beleza com as suas histórias.
O dia está a chegar ao fim, e eu sou uma borboleta cansada, desejando pousar numa flor. Resolvo ir novamente à tua procura, sei que te vou encontrar coberto de tinta e sorridente.
Esta noite tenho vontade de adormecer nas tuas asas e voarmos pelos sonhos no meu céu vermelho.
Quinta-feira, Novembro 04, 2004
Dizer que o teu olhar me perturbou, é pouco.
Tinhas sete anos quando todas as tardes depois de saíres da escola, percorrias a cidade para teres aulas de música.
Sozinho no autocarro, rodeado de gente desconhecida, tinhas medo, e esse medo fazia-te desejar em segredo coisas que ninguém imaginava.
Eras um menino, apenas isso.
Abraçavas a caixa do teu violino como quem abraça um tesouro.
Eu via-te sem que tu me visses. Estava sentada ao teu lado, e observava-te em silêncio, como sempre gostei de fazer. Nunca me atrevi a dizer-te olá, bastava-me saber que te podia ver todos os dias à mesma hora.
Apesar de menino já tinhas esse olhar cigano que ainda hoje me fascina, mas estavas sempre muito pensativo e assustado. O tempo fez com que perdesses o medo, mas continuo sem saber no que estás a pensar.
Tenho saudades daquele menino que atravessava a cidade para aprender a tocar, e que murmurava baixinho, vezes sem conta, que queria ser um bom violinista.
Fechavas os olhos e desejavas isso, mais do que tudo.
Um dia consegui ouvir-te, e descobri o teu segredo. Não me contive, agarrei-te a mão com força, entrei no teu olhar e disse-te que tinha a certeza de que com o teu violino abraçarias o mundo. Pensei que te ia assustar, mas tu sorriste, foi a primeira vez que te vi sorrir. Nesse instante soube que aquilo que te estava a dizer seria verdade.
Quando te ouço tocar parece que tudo pára e só existe a tua música. Nesses momentos és mágico e voltas a ser aquele menino que desejava em segredo ser um grande violinista, para fazer sorrir o pai.
Voltei-te a reencontrar muitos anos depois daqueles nossos passeios de autocarro, em que tu vivias para a música e eu vivia para te ver abraçado ao violino. Não me reconheceste, e ainda hoje não te disse quem eu era.
Estavas a tocar numa festa, e quando me viste seguiste-me com a tua música. Talvez nesse instante eu te tenha feito recordar algo que nunca conseguiste descobrir o que era, e não me quiseste deixar partir. As pessoas à volta acharam graça, e eu não conseguia parar de olhar para ti à procura daquele menino que sempre fez parte do meu mundo, sem o saber.
Tinhas sete anos quando todas as tardes depois de saíres da escola, percorrias a cidade para teres aulas de música.
Sozinho no autocarro, rodeado de gente desconhecida, tinhas medo, e esse medo fazia-te desejar em segredo coisas que ninguém imaginava.
Eras um menino, apenas isso.
Abraçavas a caixa do teu violino como quem abraça um tesouro.
Eu via-te sem que tu me visses. Estava sentada ao teu lado, e observava-te em silêncio, como sempre gostei de fazer. Nunca me atrevi a dizer-te olá, bastava-me saber que te podia ver todos os dias à mesma hora.
Apesar de menino já tinhas esse olhar cigano que ainda hoje me fascina, mas estavas sempre muito pensativo e assustado. O tempo fez com que perdesses o medo, mas continuo sem saber no que estás a pensar.
Tenho saudades daquele menino que atravessava a cidade para aprender a tocar, e que murmurava baixinho, vezes sem conta, que queria ser um bom violinista.
Fechavas os olhos e desejavas isso, mais do que tudo.
Um dia consegui ouvir-te, e descobri o teu segredo. Não me contive, agarrei-te a mão com força, entrei no teu olhar e disse-te que tinha a certeza de que com o teu violino abraçarias o mundo. Pensei que te ia assustar, mas tu sorriste, foi a primeira vez que te vi sorrir. Nesse instante soube que aquilo que te estava a dizer seria verdade.
Quando te ouço tocar parece que tudo pára e só existe a tua música. Nesses momentos és mágico e voltas a ser aquele menino que desejava em segredo ser um grande violinista, para fazer sorrir o pai.
Voltei-te a reencontrar muitos anos depois daqueles nossos passeios de autocarro, em que tu vivias para a música e eu vivia para te ver abraçado ao violino. Não me reconheceste, e ainda hoje não te disse quem eu era.
Estavas a tocar numa festa, e quando me viste seguiste-me com a tua música. Talvez nesse instante eu te tenha feito recordar algo que nunca conseguiste descobrir o que era, e não me quiseste deixar partir. As pessoas à volta acharam graça, e eu não conseguia parar de olhar para ti à procura daquele menino que sempre fez parte do meu mundo, sem o saber.
Teu rosto agora assemelha-se a um pássaro, a música libertou-te, mas o mundo prendeu-te.
Dizer que o teu olhar me perturbou… é pouco.
Dizer que o teu olhar me perturbou… é pouco.
Autor desconhecido
Quinta-feira, Outubro 21, 2004
À minha prima Joana pelo seu aniversário
Ele fazia-lhe falta…
Ela pensava muitas vezes nele, nas suas fotografias de portas e janelas, no quadro que pintou com o menino pendurado no estendal, nas suas figuras em barro.
Ficava-lhe a memória de uma casa vazia na Bica, de um baloiço onde já não andava ninguém, de uma banheira arrumada na sala que servia para tudo menos para tomar banho.
Ficava-lhe a memória dos cacilheiros que ao longe ela observava, e dizia-lhe que pareciam velhos que se arrastavam com dificuldade, ele dizia que não. Para ele eram meninos aos pulos no rio.
Ele fazia-lhe falta pelo silêncio, pelas memórias perdidas, pelas cartas mandadas, pela madeixa de cabelo guardada numa caixa de fósforos.
Ele representava tudo aquilo que não se chegou a cumprir, porque as promessas só existem para serem quebradas.
Ela gostava de o recordar ouvindo as músicas que tinham descoberto juntos, e baixinho cantava-as. Sorria ao lembrar-se de que ele lhe pedia o silêncio, porque não lhe ficava bem cantar tão mal. Ela não se aborrecia, divertia-se com a busca dele pela perfeição, mas ela sabia que não era perfeita.
Ela acreditava que pensar nele não a parava no tempo, e que era isso que fazia com que ela continuasse.
Um dia ao ver fotografias antigas, apercebeu-se de que agora era apenas um reflexo do que tinha sido. Nesse momento ela sentiu que lhe faltava algo, mas não sabia onde estava a outra parte de si mesma. Ela descobriu que sempre que pensava nele, um bocadinho dela desaparecia e ficava mais presa a ele. Era nele e no seu passado onde ela se encontrava de verdade, e por isso agora, era apenas uma sombra.
Ela foi buscar o baú onde guardava as suas memórias, tirou tudo para fora, e ali ficou durante horas a acariciar as cartas, as aguarelas, as fotografias, os livros oferecidos, os bilhetes de comboio. Naqueles objectos estava a parte dela que mais amava e como não conseguia apagá-la, decidiu entrar num desenho e ficar presa nele para sempre. Uma parte de si já estava lá há muito, à sua espera.
Ele fazia-lhe falta…
Ela pensava muitas vezes nele, nas suas fotografias de portas e janelas, no quadro que pintou com o menino pendurado no estendal, nas suas figuras em barro.
Ficava-lhe a memória de uma casa vazia na Bica, de um baloiço onde já não andava ninguém, de uma banheira arrumada na sala que servia para tudo menos para tomar banho.
Ficava-lhe a memória dos cacilheiros que ao longe ela observava, e dizia-lhe que pareciam velhos que se arrastavam com dificuldade, ele dizia que não. Para ele eram meninos aos pulos no rio.
Ele fazia-lhe falta pelo silêncio, pelas memórias perdidas, pelas cartas mandadas, pela madeixa de cabelo guardada numa caixa de fósforos.
Ele representava tudo aquilo que não se chegou a cumprir, porque as promessas só existem para serem quebradas.
Ela gostava de o recordar ouvindo as músicas que tinham descoberto juntos, e baixinho cantava-as. Sorria ao lembrar-se de que ele lhe pedia o silêncio, porque não lhe ficava bem cantar tão mal. Ela não se aborrecia, divertia-se com a busca dele pela perfeição, mas ela sabia que não era perfeita.
Ela acreditava que pensar nele não a parava no tempo, e que era isso que fazia com que ela continuasse.
Um dia ao ver fotografias antigas, apercebeu-se de que agora era apenas um reflexo do que tinha sido. Nesse momento ela sentiu que lhe faltava algo, mas não sabia onde estava a outra parte de si mesma. Ela descobriu que sempre que pensava nele, um bocadinho dela desaparecia e ficava mais presa a ele. Era nele e no seu passado onde ela se encontrava de verdade, e por isso agora, era apenas uma sombra.
Ela foi buscar o baú onde guardava as suas memórias, tirou tudo para fora, e ali ficou durante horas a acariciar as cartas, as aguarelas, as fotografias, os livros oferecidos, os bilhetes de comboio. Naqueles objectos estava a parte dela que mais amava e como não conseguia apagá-la, decidiu entrar num desenho e ficar presa nele para sempre. Uma parte de si já estava lá há muito, à sua espera.
Autor desconhecido
Quarta-feira, Outubro 06, 2004
Contigo aprendi que gostar de alguém não implica que tudo tenha que ser um reboliço constante, pode ser tranquilo como saborear lentamente um sorriso.
Eu e tu não partilhamos a poesia das palavras, mas gostamos de escalar montanhas sem ter hora para o regresso. Passar a noite num abrigo e saber, que se quisermos, amanhã podemos lá continuar.
Depois vamos à procura do deserto, entramos nele e não temos vontade de sair dali. Ele engole-nos como se fosse o mar, e o futuro será sempre o momento presente em que caminhamos de mãos dadas, como se fossemos um só em todas as nossas diferenças. Gostar de alguém é isso, unirmo-nos no que nos separa.
Eu encontro-me nas palavras e tu estás na natureza.
Fazes-me sentir o cheiro da chuva quando cai na terra. Ensinas-me a ouvir o vento no deserto. Em tudo isso há mais poesia do que nas palavras que eu tento agarrar.
Eu e tu não partilhamos a poesia das palavras, mas gostamos de escalar montanhas sem ter hora para o regresso. Passar a noite num abrigo e saber, que se quisermos, amanhã podemos lá continuar.
Depois vamos à procura do deserto, entramos nele e não temos vontade de sair dali. Ele engole-nos como se fosse o mar, e o futuro será sempre o momento presente em que caminhamos de mãos dadas, como se fossemos um só em todas as nossas diferenças. Gostar de alguém é isso, unirmo-nos no que nos separa.
Eu encontro-me nas palavras e tu estás na natureza.
Fazes-me sentir o cheiro da chuva quando cai na terra. Ensinas-me a ouvir o vento no deserto. Em tudo isso há mais poesia do que nas palavras que eu tento agarrar.
Às portas do Sahara - Cláudia N.


